A INÓCUA VERBORRAGIA DOS OBSCURECIDOS QUE SE PRETENDEM ILUMINADOS

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Talvez pareça de certa crueldade o título que se dá a esta crônica. Bem, talvez. Todavia, é, antes, um exercício de impaciência, desses que a gente adia, evita, desconversa, até que, não conseguindo mais conter o fluxo natural do pensamento, o externaliza.

Um grande amigo, poeta de elevada estatura (mais poética do que física — e friso isso porque sua altura física é dentro da média nacional, a poética é muito acima), de vez em quando brinda-me com textos produzidos por um ilustre advogado, cuja principal característica (do texto) são as palavras enfatuadas, o rebuscamento excessivo da escrita, os verbos e substantivos “difíceis” porque não usuais.

O mais interessante de tudo isso é que o dito escritor enfeita (pode subtrair o “t” de “enfeita” que, nesse caso, dá na mesma) o texto com uma suntuosa combinação de vocábulos tais como “faceta forjada”, “teleologia” “transbordo”, “volição” “bafejos do aprazível”, verdadeiras pérolas que fariam corar as ostras. Mas esse não nos parece ser o maior dos problemas. Acredite, leitor, o pior está por vir!

Após ler uma nota, crônica, loa, seja lá o que for — ou como alguém se arrisque a classificar o texto —, começa a verdadeira batalha do leitor: decifrá-lo. É preciso ler de novo, geralmente uma terceira vez, até que cheguemos à conclusão de que, se realmente quisermos atribuir sentido a tal verborragia, teremos que inventar um. Um sentido, deixo claro!

Ao que parece, alguns de nós — que nos metemos a escrever — ainda achamos que utilizar palavras que ficam muito confortáveis no dicionário, mas que não se sentem muito à vontade fora dele, significa inteligência, cultura e, mais ainda, sabedoria. Ledo engano! A palavra deve ser encaixada na frase com propriedade, com simplicidade, para expor toda a sua beleza. A frase deve ser escrita na medida certa, sem exageros. Assim como na vida, os atavios excessivos, os ornamentos aleatórios desafinam, desarmonizam, até mesmo ridicularizam. Nunca surfei, mas imagino que poderia fazer esta analogia: escrever um texto claro, limpo, escorreito, seria como surfar numa onda perfeita, deslizar sobre ele (texto-onda) com elegância e precisão. Aí, amigos, teríamos dado o recado da melhor maneira.

Um conselho: é melhor utilizar palavras usuais, corriqueiras. Palavras que todo mundo entende. As ornamentais, só para ornamentar, senão fica feio. E que tenham sentido ali, tenham um encaixe perfeito. Tem que ser um Augusto dos Anjos pra usar aquelas combinações de palavras esquisitas e o texto ficar tão lindo!

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