UMA QUESTÃO CRUCIAL

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Quando a magaji Jarumi Matasa respondeu ao sacerdote-mor Juelício Ju, comandante da expedição, ao pé da montanha Gamuwa Dutsen, enfatizando que a travessia até o Caminho do Funil seria por dentro de sua “casa”, estava enfatizando um conceito muito mais amplo do que parece à primeira vista. Veja o diálogo, que se encontra no capítulo 23 de O Legado do Profeta:

— Sei que estarão. Espero que não tenhamos nenhuma escaramuça entre os homens, magaji. — disse o líder da expedição. — Disciplina, é tudo que espero. Os próximos dias serão difíceis.

Jarumi Matasa sorriu:

— Não é a mim que tem que dizer isso, firist. Eu sou uma Mazaunin do Norte. Meus irmãos são disciplinados e sabem que daqui de Gamuwa Dutsen até o Caminho do Funil estaremos caminhando dentro de nossa casa. Então, cuide de avisar aos visitantes que respeitem nossa casa. Seremos bons anfitriões, mas esperamos que os outros sejam bons visitantes.

Este é um conceito de “casa” que extrapola em muito o conceito jurídico. Perpassa, sem dúvida, a concepção de “casa” tradicional e expande a compreensão para o ambiente amplo que abrange não apenas o local fisicamente habitado pelo indivíduo, mas, também, todo o conjunto de lugares comuns a esse indivíduo e seus semelhantes.

No caso do diálogo entre nossos personagens, Jarumi Matasa chama de casa toda a Região Norte de Nahiyar, a sua Região. Ela invoca o direito de exigir respeito e cuidado com cada árvore, cada animal, cada rio e cada centímetro do solo de sua “casa”, porque ali é o seu habitat, ali é o seu ugar, é ali que ela vive e que vivem seus irmãos.

Entretanto, há, subjacente ao texto, e que poderá ser melhor compreendido na sequência da história, algo que vai além do que expusemos no parágrafo anterior: não apenas o ambiente natural, na concepção de Jarumi Matasa, perfaz o conceito de “casa”, mas todo o conjunto cultural dos Clãs do Norte. Observe que ela diz: “meus irmãos são disciplinados”. Seguindo a lógica dos Mazaunin do Norte, ser disciplinado significa ter consciência. O Mazaunin do Norte é consciente de quem ele é e o que isso significa.

A confirmação dessa visão do Norte perpassa toda a trilogia e encontra, no Livro Três — O Papiro do Profeta, capítulo 20 (87 da trilogia) —, seu ápice no diálogo entre o magaji Fushi Rios e o jovem Jikan Tsira:

— E por quê? — inquiriu o jovem Mazaunin do Oeste.

— Porque sabemos quem somos, Jikan Tsira! — respondeu o magaji Rios, encarando o jovem Turmalina. — Sabemos quem somos!

A questão da identidade é incontestável! Um povo que conhece sua própria história e que se sabe responsável pelo próprio destino possui uma visão macro da vida, assume uma responsabilidade que costuma escapar de pessoas e sociedades que não descobriram quem são e o que estão fazendo no mundo.

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