UMA RELAÇÃO ESPIRITUAL

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O filósofo francês Gilles Deleuze disse que “escrever não é assunto privado de alguém”. Talvez, à primeira vista, pareça que o ilustre pensador esteja equivocado, porque muito se fala que a atividade do escritor é solitária, ao ponto de, muitas vezes, haver referências a autores que se distanciaram do mundo comum de suas relações para poderem produzir suas obras literárias.

Não mergulhei suficientemente no pensamento de Gilles Deleuze para afirmar, com elevado grau de certeza, o que, de fato, ele estava a dizer com essa sentença. Mesmo porque, Deleuze exprime esse pensamento num contexto abrangente, falando, não apenas de literatura, mas também de filosofia e ampliando, como costumam fazer os filósofos, o espectro do significado de sua afirmação.

Entretanto, a leitura que faço de tal assertiva me leva a concordar com ele. Penso que escrever, de fato, “não é assunto privado de alguém”. Há, no fenômeno da escrita — e me permitam enfatizar que me refiro à escrita literária — um compartilhamento, muitas vezes, inconsciente, do escritor com o futuro leitor. Já falamos outras vezes sobre isso!

Acontece que, ao escrever, o escritor, necessariamente, assume certo tipo e certo grau de responsabilidade com o que escreve. Vale dizer, não se trata apenas de juntar palavras e frases e “jogar no mundo”. O Escritor imbui sua produção literária de sentido, porque quer dizer algo, transmitir uma mensagem. E sabe, invariavelmente, que, cedo ou tarde, de um ou de outro modo, o destinatário de suas palavras haverá de lê-las. A partir daí, então, a verdade do autor será mesclada com a verdade do leitor para gerarem uma verdade nova, mais complexa e mais específica.

Essa relação é necessária. A relação autor-leitor é uma das mais belas e profundas que existem, porque é simbiótica. Um depende do outro. Ambos se completam. E é uma relação exclusivamente espiritual — salvo as óbvias exceções. E é por isso, sob essa compreensão e essa ótica particular, que concordo com Deleuze que “escrever não é assunto privado de alguém”. É assunto compartilhado, é chuva sobre a terra, é a soma de elementos que produzem vida, portanto, diz respeito a todos, indistintamente.

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