OS DEDOS DE BÁRBARA

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O que foi é o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer; nada há, pois, novo debaixo do sol.

Eclesiastes 1:9

                Antes de o sol raiar, quando as aves começam a sentir sua proximidade e se inquietam nos poleiros, a maioria das pessoas ainda dorme. Em alguns lugares, o sono já começa a ceder lugar lentamente à consciência, e um ou outro ser humano adulto abre os olhos e prepara-se para mais um dia. As crianças ainda dormirão mais algum tempo, pois elas precisam de mais horas de sono que os adultos e não há motivo para saltarem da cama com o nascer do sol. Dormem, tranqüilas. Que venha o sol trazendo o dia, que mais tarde elas se levantarão, para uma boa refeição, a escola, os brinquedos ou a TV.

Mas, ainda estamos antes do sol raiar. E, no verão nordestino, ele já desponta com a força de um gigante, com o calor de mil fornalhas, com a luz de mil holofotes. Nos minutos que antecedem seu aparecimento glorioso na crista da serra, o clarão de seu fulgor já se espalha, invasor, pelo firmamento, expulsando os restos da noite e conferindo forma e cor a todas as coisas. E a vida explode mais uma vez, dádiva suprema do Criador, ponto de partida para todos os demais dons.

Pois bem, no casebre de taipa, na esquina daquela rua periférica, com suas paredes de varas e enchimento de barro, sua porta tosca e sua janela única, pequena, tímida, ao lado esquerdo da portinha, Zé não esperava o sol nascer para despertar. Erguia-se antes e, com ele, erguiam-se Zulmira, a mulher, e os três filhos homens, com idades de dez, oito e sete anos. Estes iam trabalhar com o pai na lavoura. A mãe, Zulmira, ia para a ralação de mandioca, mas não ia só: levava consigo a filha de três anos, Bárbara, pequenina e morena, a pele tostada de sol e os cabelos lisos maltratados. Quando o sol começou a despontar, Bárbara respondeu ao chamado da mãe levantando-se devagar, esfregando os olhos e dando um grande bocejo. Espreguiçou-se e caminhou com os pezinhos descalços pelo chão frio de terra batida do quarto que dividia com os irmãos. Meio que dobrou e embolou a colcha de retalhos com que tinha se coberto durante a noite. Ao lado da cama, num berço feito de galhos, estava Chica, a boneca de pano encardida de pouco mais de vinte centímetros de altura. Chica ainda dormia. Feliz, a vida das bonecas, exceto por não terem vida, não é mesmo? Bárbara arrumou o pedacinho de pano que cobria a boneca (como se precisasse fazê-lo), recomendou que ela ficasse quietinha e deixou o quarto.

Após o desjejum minguado de café com farinha, a família saiu para o trabalho. Zé e os meninos foram para um lado, as enxadas aos ombros, os chapéus de palha surrados jogados às costas, as cabaças de água, a farinha e a rapadura; Zulmira e Bárbara foram para o outro. As duas teriam que andar cerca de três quilômetros pela estrada de terra para chegar à casa de farinha. Foram-se. Enquanto palmilhavam o caminho, a velha sandália havaiana de Bárbara, já ficando pequena e completamente carcomida no calcanhar, enchia-se da terra branca da estrada. Lá pela metade do caminho, a mãozinha presa entre os dedos da mãe, Bárbara começou a cantarolar uma cantiga que aprendera cedo, de tanto ouvir as raladeiras cantando em frente às bacias de mandioca ralada, esfregando as raízes brancas nos raladores erguidos no meio: “Olê, mulé rendêra, olê, mulé rendá, tu me insina a fazê renda, qui eu ti insino a namorá”. A cantoria perdurou por cerca de dez minutos, mas ela cansou-se e continuou a caminhar calada, começando a retardar o passo da mãe, as perninhas recusando-se a prosseguir no ritmo inicial. Quando atingiram a confluência com outra estrada, avistaram outras pessoas que se aproximavam, mulheres e crianças que também estavam indo para a casa de farinha. Por fim, suada e com sede, Bárbara chegou ao destino – era mesmo seu destino – e reuniu-se a outras crianças, meninos e meninas, todos maiores que ela. Minutos depois, começava a faina de ralar e ralar, até que a tarde descesse, e as sombras da noite se aproximassem mais uma vez.

Bárbara era a mais nova do grupo. Ali estavam oito mulheres e doze crianças, ocupadas na tarefa de ralar o quanto pudessem de mandioca para ganhar míseros centavos que mal dariam para adquirir alimento e mitigar a fome crônica que carregavam dentro de si. A cantoria, como sempre, começava animada pela manhã e ia cedendo, à medida que o dia avançava, e o cansaço ia tomando conta de braços, costas e músculos vários de cada um.

Para Bárbara, aquele galpão imenso era um lugar de encontros e trabalho duro. Naquela manhã de quarta-feira, antes de começar a ralar, ficou observando um pardal que saltitava e emitia seu canto estridente entre as vigas do teto. Logo, porém, o ruído da alva mandioca desmanchando-se contra a aspereza dos ralos trouxe-a de volta à realidade, e ela começou a trabalhar. Pensou em Chica, deitada lá no berço de galhos, o paninho estendido sobre ela. Que vontade de brincar…

O teto alto do galpão mostrava algumas teias de aranha e o pó acumulado em toda parte. O chão, esse sim, de cimento vermelho, era gostoso de se ficar descalça sobre ele, refrescar os pés no meio de todo aquele calor. O cheiro forte da farinha vinha do compartimento contíguo, e o barulho da roda embalava o ritmo das cantigas entoadas pelas raladeiras.

Os ralos iam diminuindo o tamanho das raízes de mandioca, e as bacias iam-se enchendo, mas a de Bárbara era a que se enchia com maior vagar, os bracinhos fazendo um grande esforço para melhorar seu desempenho. A princípio, cantava. Acompanhava a ladainha das mulheres e das outras crianças e, vez em quando, ouvia a voz dos homens que trabalhavam na casa da roda, enquanto o suor tomava conta de seu corpo. Levantou-se, bebeu água do pote e retomou seu lugar em frente à bacia e ao ralador. Alternava-se. Às vezes cantava, outras vezes calava-se e perdia-se nos pensamentos infantis. Queria tanto poder brincar, ninar Chica entre os braços, cantar para ela dormir, arrumar a casinha com sabugos de milho, pedaços de pau e pedras, fazer comidinha com folhas, vagens, frutas vermelhas de mandacaru que os irmãos lhe davam. Gostava de brincar de esconde-esconde, de pique. Sempre levava desvantagem, era a menorzinha, mas divertia-se. Brincar! Na verdade, era disso mesmo que ela mais gostava, mas tão raramente podia…

Mas, ali, o que havia era um galpão grande com teias de aranha e pó, o ruído da roda na casa de farinha, o cheiro da farinha quente, o calor, as cantigas das raladeiras, o suor, o pardal no teto, a bacia, o ralador, os pedaços tão branquinhos de mandioca, o cansaço, o pote de água, o dia avançando tão sem sentido, a repetição, a monotonia…

Sabia, porém, que quanto mais mandioca ralasse, mais um pouquinho de dinheiro a mãe receberia, e isso era importante para comprar comida. Por isso, pôs mais força nos braços e aumentou o esforço para ralar. De repente, o pedaço de mandioca que segurava escorregou, e os dedinhos de Bárbara encontraram as farpas afiadas do ralador. Não houve tempo para evitar o contato. Nem para minimizá-lo. A parte externa de seus dedos arrastou-se com força sobre o ralo, e o metal pontiagudo rasgou sua pele, suas carnes, arranhando o osso de seus dedos. Num instante, o sangue brotou entre a brancura de seus tecidos, e com um grito ela soltou o ralador, que caiu dentro da bacia. Sacudindo os dedos, Bárbara principiou um choro alto e sofrido. O ferimento doía. Logo a mãe correu para ela, as outras mulheres correram para ela, e os dedos de Bárbara gotejavam o sangue que lhe era exigido para sobreviver, porque a vida lhe era cara, e o preço tinha que ser pago diariamente se quisesse continuar a tê-la.

Lavaram-lhe a mão com água e puseram-lhe folhas sobre a ferida. Enrolaram um paninho branco em sua mão e mandaram-na ficar num canto, sem trabalhar, esperando a hora do almoço. Ainda teria uma hora de espera. Ainda chorando, ela viu todos retomarem o trabalho e ficou ali, olhando, sofrendo a dor, segurando a mão ferida com a outra, as lágrimas ainda rolando de seus olhinhos. A sua bacia de mandioca permaneceu intocada, o ralador caído dentro, o pedaço de mandioca quebrado ao lado. Bem que ela poderia ter trazido Chica, mas ali não podia, nunca havia tempo para brincadeira.

Ao meio-dia, almoçaram farinha com piaba frita, beberam água do pote de barro e retornaram ao trabalho. Bárbara sentiu sono. O calor sufocante da tarde produzia em todos uma moleza, um desejo de fechar os olhos e abandonar-se no cimento frio, repousar, dormir, apenas dormir… então, um dos meninos sugeriu que Bárbara poderia ralar a mandioca com a outra mão. A princípio, a mãe dela disse que não, que não era preciso. A própria Bárbara rejeitou a idéia. O ferimento nos dedos da mão direita ainda doía. Mas, à medida que os minutos foram passando e a dor diminuindo, Bárbara começou a querer ralar mais um pouco, quem sabe conseguiria mais um pouquinho de dinheiro? Isso era importante, ela repetia mentalmente para si mesma, mamãe sempre dizia que era importante. Então, ao cabo de meia hora, sentou-se em frente à sua bacia, tomou novamente o ralador, apoiando-o agora com a mão ferida, pegou a mandioca com a outra e recomeçou a ralar.

Que razões poderia haver para que ela continuasse aquele trabalho impróprio e, ainda por cima, ferida? Aos três anos de idade, quanto se poderia cobrar de razão, de discernimento, de lógica? Mas, a verdade era que aquela era sua atividade diária, sua obrigação, sua contribuição para a alimentação da família e dela própria. Era “importante”, como sua mãe lhe dizia sempre. Os centavos que ela ganhava faziam diferença, embora, nessa idade, ela não fizesse conta disso, e “importante” era apenas “importante”, sem nada mais que isso. Mas, para a família, a diferença era contabilizada em alimento a mais ou a menos, mesmo que esse alimento fosse apenas um pão ou um pacotinho de duzentos gramas de fubá. E, embalada pelo ruído do atrito incessante da mandioca que se entregava passivamente à destruição do ralador implacável, a pequena Bárbara novamente ralava e ralava e ralava, pensando em Chica, a boneca de pano encardida, que dormia no berço de galhos, tão solitária quanto ela não percebia que estava.

Antes que a tarde chegasse ao meio, o pedaço de mandioca escorregou da mão de Bárbara – essa mão não era a mais habilidosa das duas – e, mais uma vez, os dedos de Bárbara – dessa vez os dedos da mão esquerda – encontraram os dentes afiados do ralador, sempre implacável, que lhe esfolaram as juntas, arrancando pele, carne e sangue e tocando-lhe dolorosamente os ossos. O grito de dor dessa vez não foi apenas um grito, nem foi apenas de dor. Ressoou no galpão como a voz de muitas águas, estridente, ressentido, forte como a morte. O grito foi mais: foi uma acusação formal contra os homens de poder, os homens de comando, os homens que escrevem com tinta de ouro e fuligem o destino doloroso de tantas Bárbaras. Foi como se o galpão estremecesse, e, por um instante, a roda parou de rodar, e o pardal saiu pela abertura dos fundos para a liberdade que era negada a Bárbara.

Repetiu-se o ritual: lavaram o ferimento com a água fria do pote de barro, Zulmira, com os olhos marejados, limpando as lágrimas da filha, puseram folhas e enrolaram com um paninho branco arranjado ninguém sabe onde. A dor manifesta, a dor visível, a dor exposta que remete incondicionalmente àquela outra, cotidiana, mantida no anonimato pela repetição, pela constância, pela permanência. E, de novo, Bárbara no cantinho, enquanto a tarde avançava, agora ainda soluçando de mansinho, os olhinhos derramando lágrimas pequeninas, as mãozinhas enroladas nos paninhos brancos repousando no colo.

O calor ainda presente, absoluto, o sono, a quietude, o ruído monótono da roda e do ralo, e Bárbara dormia aconchegada ao frescor do cimento vermelho, as mãos pendidas ao lado do corpo, tão frágil, tão pequenina, tão doce …

Ao final do dia, Bárbara colocou novamente nos pezinhos as velhas havaianas e acompanhou Zulmira na volta para casa. Dessa vez, ela ia quietinha, calada, apenas mais devagar, sem poder segurar nas mãos da mãe. Os dedinhos doíam sob os rudimentares curativos. Ao chegarem em casa, a mãe de Bárbara deu-lhe um banho na gamela, no quintal, não molhou suas mãozinhas, trocou sua roupinha e foi cuidar do café – como sempre, minguado – para a família que já estava toda reunida. Bárbara foi até o quarto, apanhou Chica no bercinho de galhos, aconchegou-a e cantou uma cançãozinha de ninar inventada na hora, tomada emprestada de alguma melodia conhecida. Depois comeu e foi para sua cama, abraçada com Chica, pensando na casa de farinha, na roda, no pardal, no cimento, no pote, no galpão, na bacia, na mandioca, no ralo e, nos seus três anos de vida, teve a certeza de que voltaria para lá e então teve um medo infantil de ficar sem seus dedinhos, perdidos dia após dia nos dentes agudos do ralador de mandioca. Então, desceu da cama e fez uma oração, pedindo a Papai do Céu que não a deixasse ficar sem dedos.

Dormiu.

Pela manhã, retornaria ao local de trabalho. Logo sararia e voltaria a ralar mandioca. Era “importante” para a família que continuasse. Precisavam de Bárbara, de seu sacrifício, de seus dedos.

Quanta barbaridade!

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