ALÉM DE TODA IMANÊNCIA

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Desejo iniciar este scriptum com uma pergunta: o que é realidade? Qualquer dicionário nos dirá, em suma, que “realidade é tudo que existe”. Então, pergunto: o que é existir? Existir é ser? E, seja ou não seja, o que é ser? Não é nosso objetivo aqui mergulhar na ontologia. Por isso, tendo despertado a curiosidade (ou não), voltamos à pergunta inicial e deduzimos que, se atentarmos para a filosofia, poderemos ampliar e/ou diversificar a concepção de realidade.

Então, pensemos juntos: quantas realidades podem existir? Só uma? Muitas? Interagimos com o mundo por intermédio de nossos sentidos. Será, então, que nossos sentidos são capazes de perceber tudo que existe? Ou que é? Onde nos constituímos no ápice da concretude? Na imanência ou na transcendência? Nossa relação com o espaço e o tempo é a única possível? A realidade está dentro de nós ou fora de nós? Ontologicamente, somos imóveis? Matéria ou ideia? Vontade de potência ou o permanente devir?

Particularmente, aprecio a dialética hegeliana. Acredito que se encaixa bem, aqui em nosso texto, o postulado de Ortega y Gasset: “eu sou eu e a minha circunstância”. Embora o indivíduo seja “ele em si”, não é completo sem o todo que o envolve. Para verdadeiramente ser, o indivíduo depende de si e da realidade que o rodeia e na qual ele está irremediavelmente inserido — a sua circunstância, sem a qual ele não é completo — ou, simplesmente, não é.

Cada pessoa é uma realidade. Duas pessoas que entrem em um elevador em um determinado andar e saiam dele juntas em outro andar, são duas realidades distintas. O que é real não está apenas fora de nós — a realidade está em nós, e isso quer dizer dentro de nós e à nossa volta. Tudo que se passa na nossa mente é real — real para cada um de nós.

Por isso, enquanto escritor e leitor, arrisco-me a afirmar que toda leitura é real. E não apenas a leitura em si — o que é óbvio — mas o que se lê. Logo, estou afirmando que cada personagem fictício é real; que cada história fictícia é real; e que cada mundo imaginado e inventado é real. Real para quem escreve e real para quem lê. Daí que, como disse George R. R. Martin, “o leitor vive mil vidas”. Porque, no final das contas, o escritor é uma espécie de ser divino: ele lhe oferece outro(s) mundo(s) e lhe possibilita outra(s) vida(s)!

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